A SEMIÓTICA DA ICONOGRAFIA CELESTE: UMA ANÁLISE COGNITIVA DOS SIGMAS ASTRONÔMICOS NA REPRESENTAÇÃO VISUAL DO UNIVERSO
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Resumo
A apreensão do cosmos pelo intelecto humano sempre esteve condicionada por uma tensão dialética entre o visível, o inteligível e o tangível. No limiar entre a ciência e a cultura visual, a representação de corpos celestes em materiais didáticos e no imaginário popular é frequentemente marcada por convenções iconográficas que se distanciam radicalmente da morfologia e da física real dos objetos astronômicos. Este artigo investiga o fenômeno epistemológico e semiótico dos chamados “sigmas astronômicos” padrões gráficos universais, recorrentes e historicamente cristalizados que substituem a anatomia real dos astros por assinaturas visuais operacionais de rápida identificabilidade. A partir de uma abordagem qualitativa, descritiva e analítico-semiótica, toma-se como corpus empírico de investigação o produto educacional “Foguete Solar” (um painel tridimensional e interativo), utilizando-o não como mero recurso pedagógico, mas como um repositório etnocráfico dos atalhos cognitivos da humanidade. A pesquisa debruça-se sobre a desconstrução analítica de cinco sigmas centrais: 1) a projeção de raios e coroas pontiagudas na representação do Sol; 2) a morfogênese da estrela de cinco pontas; 3) a hiper-saturação e a cromaticidade distintiva aplicadas às superfícies planetárias; 4) a convenção mecanicista do rastro contínuo na trajetória dos cometas; e 5) a hipertrofia anular metonímica do planeta Saturno. Amparando-se nos referenciais da semiótica visual de matriz peirceana, da psicologia da percepção (Gestalt) e da óptica fisiológica, a discussão demonstra que tais estilizações visuais não devem ser diagnosticadas como meros "erros conceituais" ou falhas de letramento científico. Pelo contrário, revelam-se como dispositivos cognitivos altamente sofisticados, moldados tanto pelas limitações biológicas do sistema visual humano como a difração do cristalino, os picos de refração ocular e a tradução somática do ofuscamento, quanto por imperativos de funcionalidade categórica e economia mental. A saturação das cores, por exemplo, atua como um rótulo taxonômico indispensável à diferenciação imediata; a cauda do cometa reflete o viés mecanicista de uma mente acostumada à física atmosférica terrestre; e os anéis de Saturno funcionam como a metonímia gráfica definitiva de todo o domínio espacial. Em suma, o trabalho evidencia que os sigmas astronômicos operam como pontes conceituais indispensáveis entre a percepção sensorial imediata e o conhecimento científico formal. Ao desvelar as camadas simbólicas e fisiológicas subjacentes a esses códigos gráficos, o estudo oferece contribuições valiosas para os campos da cognição visual, da comunicação da ciência e da teoria da imagem, demonstrando como a humanidade desenha o céu não como ele é em sua concretude física, mas como a mente humana necessita traduzi-lo para torná-lo inteligível.
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