ÁGUA, MOVIMENTO E CONHECIMENTO NO TERRITÓRIO XAKRIABÁ
Conteúdo do artigo principal
Resumo
Este artigo analisa as transformações na relação do povo Xakriabá, do norte de Minas Gerais, com a água, tomando como fio condutor a passagem de um tempo em que ela era buscada em riachos e nascentes — a água corrente — para um presente marcado pela água encanada, captada por cisternas, barragens e poços artesianos. O texto resulta de pesquisa qualitativa de caráter etnográfico realizada na Terra Indígena Xacriabá e área de retomada, em dois momentos, 2018 e em 2022, articulando observação participante, entrevistas e conversas informais, pesquisa histórico-documental e diálogo com a produção intelectual de autoria xakriabá. Discute-se como o desmatamento e a pecuária intensiva promovidos por fazendeiros contribuíram para o desaparecimento de riachos e nascentes, alterando os modos de sociabilidade, deslocamento e conhecimento do território. Em diálogo com a antropologia de Tim Ingold — em especial com o que autor chama de habitar, de malha, de linha e de paisagem como processo —, argumenta-se que movimentar-se e conhecer permanecem dimensões inseparáveis para os Xakriabá, ainda que a canalização tenha substituído o percurso das pessoas até a água pelo percurso da água até as casas. Observa-se, contudo, que a relação atual com a água segue mobilizando formas próprias de percepção da paisagem, como a espera das chuvas, a leitura dos sinais do céu e a observação do movimento dos bichos. Conclui-se que a água permanece central para compreender os modos de habitar dos Xakriabá e que a luta pelas terras às margens do Rio São Francisco articula memória, movimento e conhecimento em um mesmo horizonte de retomada de vida.
Detalhes do artigo

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International License.
Referências
Dias, L. G. A. Terra, ciência, encantos e modos xakriabá de luta. 2021. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2021.
Dias, L. G. A.; Srêwakmõwê Xakriabá, E.; Xakriabá, C. A. Retomada Xakriabá: T/terra, cultura e vida. In: Pissolato, E.; Oliveira-Castro, A. (Org.). Políticas ameríndias de contra-colonialidade no século XXI. Juiz de Fora: Editora UFJF/Aldeia, 2023. p. 127-146.
Fome, seca e resistência na Terra Indígena Xakriabá: bastidores da reportagem. Colabora – Jornalismo Sustentável, 2020. Vídeo (6 min). Disponível em: https://youtu.be/3IXztrlHXUM. Acessado em: Jan. 2023.
Ingold, T. The temporality of the landscape. World Archaeology, v. 25, n. 2, p. 152-174, 1993. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/124811. Acessado em: Maio. 2019.
Ingold, T. The eye of the storm: visual perception and the weather. Visual Studies, v. 20, n. 2, p. 97-104, 2005. Disponível em: https://l1nq.com/sugynse. Acessado em: Abr. 2015.
Ingold, T. Estar vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Petrópolis: Vozes, 2015.
Ingold, T. Linhas: uma breve história. Petrópolis: Vozes, 2022.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo demográfico 2022: etnias e línguas indígenas: principais características sociodemográficas: resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br. Acessado em: Ago. 2026.
Latour, B. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
Oliveira, S. R. A. Narrativas sobre a seca: problemas ambientais do povo Xakriabá e revitalização da lagoa da aldeia Tenda/Rancharia (MG). 2017. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Sociais e Humanidades) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2017.
Paraíso, M. H. Identidade étnica dos Xakriabá. Brasília: FUNAI, 1987.
Santos, A. F. M. Do terreno dos caboclos do Sr. São João à Terra Indígena Xakriabá: as circunstâncias da formação de um povo. 1997. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de Brasília, Brasília, 1997.
Xakriabá, F. Bloqueio do acesso ao território de origem, às margens do Rio São Francisco. Um Outro Céu. Salvador: UFBA, 2020. Disponível em: https://l1nq.com/3mevuvg. Acessado em: Jul. 2021.